Aquilo que o tempo não apagou
Capítulo 2: O SEGREDO QUE CELESTE TENTOU ESCONDER
Celeste sabia de alguma coisa.
E, pela primeira vez em quatro anos, não conseguiu esconder isso atrás daquele sorriso cruel.
Gabriel Vale ergueu os olhos lentamente.
“Celeste.”
Ela não respondeu.
“Eu fiz uma pergunta.”
Celeste olhou para mim.
Depois para o pingente.
E então para Adrian.
Foi um segundo.
Mas foi suficiente.
Gabriel percebeu.
“Você conhece esse colar?”
“Não.”
A resposta saiu rápida demais.
Gabriel apertou os lábios.
“Então por que ficou pálida quando o viu?”
Celeste respirou fundo.
“Porque é uma joia antiga. Só isso.”
“Não.”
Gabriel deu um passo na direção dela.
“Não é só isso.”
Adrian entrou no meio dos dois.
“Senhor Vale, minha mãe está nervosa por causa do que aconteceu. Talvez seja melhor encerrar essa conversa.”
Gabriel finalmente olhou para ele.
“Você pode ficar calado por um minuto?”
A sala inteira ficou imóvel.
Adrian perdeu o sorriso.
Gabriel voltou os olhos para mim.
“Mara, quem lhe deu esse pingente?”
“Ninguém.”
“Você sempre o teve?”
“Desde que me lembro.”
“Quem disse isso?”
“Os responsáveis pelo Lar Infantil Saint Anne.”
Gabriel baixou os olhos para o pingente novamente.
A pequena safira refletiu a luz do lustre.
“Saint Anne…”
Ele murmurou o nome como se estivesse voltando a um lugar que nunca conseguira esquecer.
“Eu procurei minha filha naquele lugar.”
Meu coração apertou.
“Quando?”
“Vinte anos atrás.”
Ninguém respirou.
Gabriel continuou:
“Minha filha desapareceu quando tinha três anos.”
Eu não consegui responder.
Ele olhou para o meu rosto.
Depois para minhas mãos.
Para o formato dos meus olhos.
Para uma pequena cicatriz acima da sobrancelha esquerda.
Eu nunca havia pensado nela.
Era uma marca antiga, quase apagada pelo tempo.
“Você tem uma cicatriz aqui”, ele disse.
“Eu tinha quando fui encontrada.”
Gabriel fechou os olhos por um instante.
“Minha filha também tinha.”
Adrian soltou uma risada nervosa.
“Isso é ridículo.”
Gabriel não se moveu.
“Você acha?”
“Ela foi criada em um orfanato. Muitas crianças têm cicatrizes.”
“E muitas não carregam o mesmo pingente que minha filha usava quando desapareceu.”
Adrian abriu a boca.
Mas não encontrou resposta.
Celeste, porém, encontrou.
“Gabriel, já faz vinte anos.”
“Eu sei.”
“Você não pode simplesmente olhar para uma mulher e decidir que ela é sua filha.”
Gabriel assentiu.
“Não posso.”
Ele virou-se para mim.
“Mas posso descobrir.”
Adrian agarrou meu braço.
“Vamos embora.”
Eu puxei meu braço de volta.
“Não.”
Ele me encarou.
Foi a primeira vez que disse aquela palavra diante dele sem baixar os olhos.
“Eu quero saber.”
Adrian se aproximou.
“Mara, você não sabe no que está se metendo.”
“Pela primeira vez, acho que é você quem não sabe.”
O rosto dele endureceu.
Gabriel observava tudo em silêncio.
Então colocou o pingente sobre a mesa.
“Eu quero ver os registros de Saint Anne.”
Celeste empalideceu novamente.
“Não há nada lá.”
Gabriel virou-se para ela.
“Como você sabe?”
Ela ficou muda.
Foi então que Adrian percebeu que a situação havia saído completamente do controle.
“Minha mãe conhece o lugar há anos.”
Gabriel estreitou os olhos.
“Como?”
Celeste demorou.
“Eu fazia doações.”
“Quando?”
“Na época.”
“Que época?”
Celeste não respondeu.
Gabriel insistiu:
“Vinte anos atrás?”
Ela desviou o olhar.
“Sim.”
Meu estômago revirou.
Eu tinha passado a vida acreditando que ninguém da minha família biológica sabia onde eu estava.
E conhecia o lugar onde eu havia sido deixada.
Gabriel pegou o celular.
“Vou ligar para Saint Anne.”
Celeste avançou.
“Não.”
A palavra saiu quase como um grito.
Todos olharam para ela.
Gabriel guardou o telefone lentamente.
“Por quê?”
Celeste percebeu o que havia feito.
“Porque… porque já é tarde. Os registros podem ter sido destruídos.”
Gabriel ficou em silêncio.
“Registros de vinte anos atrás não deveriam desaparecer por acaso.”
Celeste não respondeu.
Adrian tentou interromper novamente.
“Senhor Vale, eu peço que não envolva minha família nisso.”
Gabriel olhou para ele.
“Curioso.”
“Curioso o quê?”
“Você está mais preocupado com sua família do que com a possibilidade de sua esposa ser minha filha.”
Adrian ficou vermelho.
Eu senti algo estranho dentro de mim.
Durante anos, Adrian havia feito tudo para me convencer de que eu não tinha valor.
Naquela noite, pela primeira vez, alguém olhava para mim como se eu fosse a pessoa mais importante naquela sala.
Gabriel pegou o pingente.
“Vou levar isto.”
Meu coração disparou.
“Não.”
Ele parou.
“É meu.”
“Eu sei.”
“Foi a única coisa que tive a vida inteira.”
Gabriel me entregou o colar.
“Então guarde.”
Ele respirou fundo.
“Mas amanhã quero você comigo.”
Adrian deu um passo à frente.
“Ela não vai a lugar nenhum sem mim.”
Gabriel olhou diretamente para ele.
“Você já fez o suficiente por uma noite.”
Adrian ficou imóvel.
Gabriel voltou-se para mim.
“Se você realmente foi deixada em Saint Anne, precisamos descobrir quem a levou até lá.”
Eu franzi a testa.
“Levaram?”
“Minha filha desapareceu de casa.”
Ele falou cada palavra devagar.
“Ela não simplesmente apareceu em um orfanato.”
Meu sangue gelou.
Celeste fechou os olhos.
Foi uma reação pequena.
Mas eu vi.
E Gabriel também.
“Celeste.”
Ela abriu os olhos.
“Você sabe alguma coisa.”
“Não.”
“Você acabou de olhar para ela como se tivesse visto um fantasma.”
“Eu disse que não sei.”
Gabriel não insistiu.
Apenas pegou o casaco.
“Então não terá problema em responder algumas perguntas amanhã.”
Celeste não disse nada.
Adrian me puxou pelo braço.
“Vamos.”
Dessa vez, eu não o acompanhei.
“Eu vou ficar.”
Ele se aproximou do meu rosto.
“Você está me desafiando?”
“Estou tentando descobrir quem eu sou.”
“Você é minha esposa.”
Olhei para ele.
“Isso não responde à pergunta.”
Adrian ficou furioso.
Celeste tocou o braço dele.
“Adrian.”
Ele olhou para a mãe.
Foi então que ouvi Celeste sussurrar:
“Precisamos conversar.”
Meu marido e sua mãe se afastaram alguns passos.
Eu não conseguia ouvir tudo.
Mas ouvi uma frase.
“Se ele descobrir…”
Celeste parou.
Adrian respondeu em voz baixa:
“Ele não vai descobrir.”
Meu coração acelerou.
Descobrir o quê?
Antes que eu pudesse me aproximar, Gabriel apareceu ao meu lado.
“Mara.”
Olhei para ele.
“Sim?”
“Não vá para casa com Adrian esta noite.”
Olhei para meu marido.
Ele já estava olhando para nós.
“Por quê?”
Gabriel demorou um segundo.
“Porque, se estou certo sobre o que aconteceu vinte anos atrás, alguém passou duas décadas tentando impedir que você descobrisse quem é.”
Meu corpo inteiro ficou frio.
Gabriel apertou os olhos.
“E essa pessoa acabou de perceber que você está perto demais da verdade.”
Naquele instante, Celeste me encarou.
E eu finalmente entendi.
Ela não estava com medo de Gabriel.
Estava com medo de mim.