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Às 23h58, eu tinha apenas US$ 3,18

Capítulo 2: A ligação que mudou tudo

Às 23h58, eu tinha apenas US$ 3,18, nenhuma fórmula para minha bebê de sete meses e um coração partido pelo desespero. Vinte e seis minutos depois, um estranho apareceu com mantimentos para um mês inteiro — e, ao amanhecer, descobri quem ele realmente era...

PARTE 2: 

O nome na tela do celular de Ethan parecia queimar meus olhos.

Era o homem que havia me abandonado quando eu estava grávida.

O mesmo homem que prometera ficar ao meu lado e desaparecera justamente quando eu mais precisava dele.

Por alguns segundos, não consegui respirar.

Ethan percebeu minha reação.

— Você conhece quem está ligando?

Soltei uma risada curta, amarga, sem qualquer vestígio de humor.

— Conheço. Infelizmente.

Ele olhou para a tela outra vez.

— É o pai da Sophie?

Não respondi imediatamente.

Minha filha continuava mamando em meus braços, alheia ao fato de que, naquela pequena cozinha, meu passado acabara de bater à porta pela segunda vez naquela noite.

Assenti.

Ethan não fez perguntas indiscretas. Apenas silenciou o telefone.

Mas, antes que eu conseguisse recuperar o fôlego, a ligação voltou.

Dessa vez, ele atendeu.

— Ethan Cole falando.

O silêncio que se seguiu foi breve, mas suficiente para que eu percebesse uma mudança no rosto dele.

Seu olhar ficou mais frio.

— Não, ainda não recebi o relatório — respondeu. — E não quero discutir isso por telefone.

Meu coração começou a bater mais depressa.

Eu conhecia aquela voz do outro lado. Mesmo sem ouvir todas as palavras, reconheceria aquele homem em qualquer lugar.

Era ele.

O pai da minha filha.

Ethan se afastou um pouco da mesa, mas não o suficiente para que eu deixasse de ouvir a conversa.

— Você disse que o processo estava encerrado — continuou ele. — Então por que está me ligando a esta hora?

Uma pausa.

Depois, a resposta que fez meu estômago se contrair:

— Porque você precisa resolver isso antes que alguém descubra.

Ethan ficou imóvel.

Olhou para mim.

Eu apertei Sophie contra o peito.

— O que exatamente alguém não pode descobrir? — perguntou ele.

A voz do outro lado se tornou mais baixa. Ainda assim, consegui ouvir algumas palavras.

Uma delas foi meu sobrenome.

Outra foi candidatura.

E então ouvi meu ex dizer:

— Não misture assuntos pessoais com a empresa.

Ethan encerrou a ligação.

Por um momento, ninguém falou.

O silêncio parecia ainda mais pesado do que o choro desesperado de Sophie havia sido minutos antes.

— Por que ele está falando de uma candidatura? — perguntei.

Ethan guardou o celular no bolso.

— Essa é uma pergunta que pretendo responder.

— Você o conhece?

— Trabalho com ele.

Senti o chão desaparecer sob meus pés.

Olhei para o cartão de visita sobre a mesa.

Cole Industries.

As duas recusas.

A ligação.

O homem que havia desaparecido da minha vida.

Tudo parecia se encaixar de uma maneira tão absurda que minha mente se recusava a aceitar.

— Ele trabalha na Cole Industries?

Ethan assentiu.

— Sim.

Levei a mão à boca.

— Então foi por isso que você trouxe aquelas sacolas? Você sabia quem eu era?

A expressão dele mudou imediatamente.

— Não. Recebi sua mensagem por engano. Não sabia seu nome completo até chegar aqui e ver os documentos que você deixou sobre a mesa.

— Mas agora sabe.

— Agora sei.

Olhei para Sophie.

Ela estava quase terminando a mamadeira, com os olhos pesados de sono. Uma hora antes, eu teria dado qualquer coisa para vê-la tranquila daquele jeito.

Agora, mal conseguia olhar para Ethan sem sentir uma mistura de gratidão, vergonha e medo.

— Quero que você vá embora.

Ele não discutiu.

Apenas assentiu e pegou o casaco.

Mas, antes de chegar à porta, parou.

— Posso fazer uma pergunta?

— Depende.

— Você se candidatou à Cole Industries duas vezes?

Meu corpo inteiro ficou tenso.

— Sim.

— Para qual vaga?

Respondi, ainda desconfiada.

Ele repetiu o nome do cargo em voz baixa, como se estivesse tentando se lembrar de alguma coisa.

— E recebeu alguma explicação específica para as recusas?

Balancei a cabeça.

— A primeira foi um e-mail automático. A segunda dizia que eu não atendia aos requisitos da posição.

— Você tinha as qualificações?

— Eu trabalhava na área da saúde, tinha experiência administrativa e havia concluído os cursos exigidos. Passei noites preparando aquela candidatura enquanto minha filha dormia. Achei que talvez fosse minha oportunidade de recomeçar.

Minha voz falhou.

— Mas, aparentemente, nem isso eu consegui fazer direito.

Ethan franziu a testa.

— Não tire essa conclusão sem conhecer os fatos.

— Você não sabe nada sobre mim.

— É verdade. E não vou fingir que sei.

Ele olhou para as sacolas vazias perto da cozinha, depois para Sophie.

— Mas sei que uma candidatura rejeitada não determina o valor de uma pessoa.

Não respondi.

Ele deixou o cartão de visita sobre a mesa e abriu a porta.

— Não vou prometer um emprego, nem vou mudar uma decisão só porque conheci sua situação. Se houve alguma irregularidade, vou querer saber. Se não houve, também vou querer saber.

Antes de sair, acrescentou:

— E, por favor, não se sinta obrigada a me dever nada por causa da fórmula.

A porta se fechou.

Fiquei ali, segurando Sophie, olhando para o cartão.

Naquela madrugada, um desconhecido havia feito o que ninguém mais fizera por mim: ajudara minha filha sem exigir que eu provasse que merecia ajuda.

Mas a ligação dele com meu ex transformava aquela gentileza em algo muito mais complicado.

Na manhã seguinte, acordei com Sophie dormindo tranquilamente no berço e o celular vibrando sobre a mesa.

Havia uma mensagem de um número desconhecido.

"Precisamos conversar. Não conte a ninguém sobre a ligação de ontem."

Não havia assinatura.

Mas eu sabia quem tinha enviado.

Meu ex.

Apaguei a tela sem responder.

Dez minutos depois, recebi outra mensagem.

Dessa vez, era de Ethan.

"Bom dia. Espero que a Sophie esteja melhor. Não vou interferir na sua vida pessoal. Mas preciso esclarecer uma questão relacionada à sua candidatura. Você poderia conversar comigo hoje, em um lugar público?"

Fiquei olhando para a mensagem por muito tempo.

Eu precisava de respostas.

Precisava entender por que o pai da minha filha havia ligado para o CEO da empresa que me rejeitara duas vezes.

E precisava descobrir se aquelas duas recusas tinham sido realmente decisões profissionais.

Respondi que aceitaria conversar.

Marcamos para aquela tarde, em uma cafeteria perto do centro de Indianápolis.

Passei as horas seguintes tentando me convencer de que aquilo não mudaria nada.

Eu continuaria com minhas dívidas, meu emprego temporário e uma filha que dependia inteiramente de mim.

Mas, quando cheguei à cafeteria e vi Ethan sentado perto da janela, percebi que a conversa talvez fosse mais importante do que eu imaginara.

Ele não estava sozinho.

Sobre a mesa havia uma pasta fina, um notebook e duas folhas impressas.

Sentei-me diante dele.

— O que é isso?

— Não é uma oferta de emprego — respondeu. — E não quero que você pense que estou tentando comprar sua confiança.

Empurrou uma das folhas na minha direção.

Reconheci meu nome.

Era o registro da minha segunda candidatura à Cole Industries.

Abaixo dele, havia uma observação interna sobre minha disponibilidade profissional.

Minha mão começou a tremer.

A anotação dizia que eu não poderia cumprir os horários exigidos e que minha situação pessoal representava um risco para a continuidade do trabalho.

Eu nunca havia escrito aquilo.

Nunca havia informado à empresa que não poderia cumprir os horários.

Na verdade, a vaga anunciava um regime flexível, justamente a razão pela qual eu me candidatara.

— Quem escreveu isso? — perguntei.

Ethan não desviou o olhar.

— A observação foi inserida durante a análise da sua candidatura. Ainda estou verificando como ela chegou ao processo.

— E por que você está me mostrando isso?

— Porque a pessoa que aparece no histórico de alterações é a mesma que me ligou ontem à noite.

Senti o sangue abandonar meu rosto.

— O pai da Sophie?

Ele assentiu.

A cafeteria continuava cheia. Pessoas conversavam, xícaras tilintavam e a máquina de café soltava vapor atrás do balcão.

Mas, para mim, tudo havia desaparecido.

Só existia aquela folha.

Meu ex não apenas me abandonara quando eu estava grávida.

Agora, havia indícios de que também poderia ter interferido nas minhas tentativas de conseguir um emprego.

— Por quê? — perguntei, quase sem voz. — Por que ele faria isso comigo?

Ethan fechou a pasta.

— Ainda não tenho uma resposta que possa lhe dar com segurança. Uma anotação não prova toda a história. Vou pedir uma revisão formal do processo, e você terá a oportunidade de explicar o que aconteceu.

A palavra formal me fez recuperar um pouco do equilíbrio.

Eu não precisava de um favor secreto.

Precisava da verdade.

— Quero uma cópia de tudo o que você pode compartilhar comigo — disse. — E quero que essa revisão seja feita por alguém que não tenha relação com ele.

Ethan pareceu surpreso.

Depois, assentiu.

— É justo.

Pela primeira vez desde que nos conhecemos, não me senti apenas uma mulher desesperada recebendo ajuda de um desconhecido poderoso.

Eu era uma mãe exigindo que a tratassem com dignidade.

Quando me levantei para ir embora, Ethan fez uma última pergunta:

— Você tem certeza de que ele sabia que você estava se candidatando à empresa?

Olhei para ele.

Lembrei-me das duas recusas, da mensagem daquela manhã e da voz que eu ouvira ao telefone.

— Não tenho certeza de nada — respondi. — Mas agora vou descobrir.

Naquela noite, quando voltei para casa, encontrei mais uma mensagem do meu ex.

Dessa vez, não havia pedido de conversa.

Não havia desculpas.

Apenas uma frase:

"Se você continuar mexendo nisso, vai descobrir coisas sobre a Sophie que talvez seja melhor não saber."

Meu coração parou por um instante.

Olhei para minha filha, dormindo tranquilamente no berço.

E compreendi que a história das duas recusas talvez fosse apenas o começo.

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