Aquilo que o tempo não apagou
Capítulo 1
O tapa calou uma sala cheia de homens poderosos.
Mas o que realmente assustou Adrian não foi o sangue no meu lábio.
Foi o colar de prata girando sobre o piso de mármore.
Três horas antes, Adrian havia colocado diante de mim um vestido preto e um avental branco cuidadosamente dobrado.
“Vista isso”, ordenou. “Meus novos colegas precisam achar que temos funcionários de verdade em casa.”
“Eu sou sua esposa.”
“Hoje à noite, você é o que eu precisar que seja.”
Celeste, mãe dele, riu da porta.
“Devia agradecer por ele ainda deixar você morar aqui, Mara.”
Amarrei o avental sem responder.
Adrian confundia meu silêncio com rendição.
Fazia quatro anos que pensava assim, desde que esvaziara minhas economias, me afastara dos meus amigos e começara a tratar a crueldade como se fosse um direito de marido.
Às oito da noite, a CASA estava cheia de executivos da Halcyon Global, o império de tecnologia cujo fundador, Gabriel Vale, acabara de promover Adrian a diretor regional de finanças.
Adrian circulava entre eles como se fosse o dono do lugar.
Falava sobre disciplina, lealdade e a importância de “saber controlar gente fraca”.
Eu servi vinho.
Recolhi pratos.
Escutei.
Então senti cheiro de fumaça vindo da cozinha.
O assado tinha queimado porque Celeste aumentara o forno ao máximo depois que eu me afastara.
Quando Adrian entrou furioso, vi o sorriso dela.
“Você me fez passar vergonha”, ele rosnou.
“Dá para substituir o assado.”
Ele segurou meu braço e me levou de volta à sala de jantar.
“Peça desculpas a todo mundo.”
“Pelo quê?”
A mão dele acertou meu rosto.
O fecho do meu colar arrebentou, e o velho pingente de prata escorregou pelo mármore até parar sob o sapato de Gabriel Vale.
“Você não serve para nada”, Adrian repetiu entre os dentes.
Gabriel se abaixou e pegou o colar.
Então ficou imóvel.
O pingente tinha o formato de uma lua crescente, dividida por uma pequena safira.
Gabriel virou a peça entre os dedos, examinando cada detalhe como se conhecesse aquelas marcas melhor do que eu.
“Onde você conseguiu isto?”, perguntou.
A voz dele tinha mudado.
“Estava comigo quando fui deixada no Lar Infantil Saint Anne.”
Gabriel levantou os olhos para mim.
“Minha filha usava um pingente assim na noite em que desapareceu.”
Adrian soltou uma risada alta demais.
“Senhor, ela inventa histórias quando quer chamar atenção.”
Gabriel não olhou para ele.
Continuou olhando para mim.
“Qual é a sua data de nascimento?”
“Dezessete de outubro.”
A mão que segurava meu colar começou a tremer.
Foi nesse instante que percebi outra coisa.
Do outro lado da sala, Celeste estava olhando diretamente para o pingente.
Ela não parecia apenas surpresa.
O copo escapou de seus dedos.
Antes que o vidro tocasse o chão, ela deu um passo para trás.
E Gabriel fechou a mão em torno do colar que acabara de recolher.
Celeste sabia de alguma coisa.