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O CHEFE DA MÁFIA E OS PAPÉIS DO DIVÓRCIO

O CHEFE DA MÁFIA E OS PAPÉIS DO DIVÓRCIO

A chuva atingia violentamente as enormes janelas da cobertura de Dante Cavalcanti, em São Paulo. Do quadragésimo andar, as luzes da cidade pareciam pequenas estrelas perdidas na tempestade.
Mas Dante não prestava atenção à paisagem. Seus olhos estavam fixos num envelope branco sobre a mesa de madeira escura. Dentro dele havia documentos que poderiam destruir os últimos três anos de sua vida: PAPÉIS DO DIVÓRCIO.
Três anos de casamento. Três anos dormindo sozinho. Três anos tentando conquistar uma mulher que nunca permitira que ele se aproximasse. E agora bastava uma assinatura para colocar um ponto-final naquela história.
Dante tinha trinta e dois anos. Era alto, de ombros largos, cabelos negros cuidadosamente penteados e olhos castanhos tão escuros que pareciam quase pretos. Tatuagens discretas apareciam sob o colarinho da camisa e alcançavam parte de suas mãos. Seu terno preto havia sido feito sob medida.
Na cidade, seu nome provocava respeito e medo. Dante comandava uma organização criminosa que mantinha influência sobre operações portuárias, empresas de transporte e negócios usados para ocultar atividades ilegais. Homens muito mais velhos evitavam contrariá-lo. Empresários influentes mediam cuidadosamente as palavras quando estavam diante dele.
Mas havia uma pessoa cuja indiferença conseguia destruí-lo: sua própria esposa, Serena Albuquerque Cavalcanti. A mulher que ele amava e que, aparentemente, não suportava estar perto dele.
Dante pegou uma fotografia sobre a mesa. Era do dia do casamento. Serena tinha vinte e cinco anos naquela época. Usava um vestido branco com detalhes delicados de renda. Seus cabelos escuros caíam em ondas sobre os ombros. Era uma mulher extraordinariamente bonita. Na fotografia, Dante estava sorrindo. Serena também. Mas agora ele compreendia que aquele sorriso talvez tivesse sido apenas uma obrigação.
O casamento havia sido organizado para encerrar anos de hostilidade entre duas famílias poderosas:
  • Os Cavalcanti: Controlavam negócios ligados ao Porto de Santos, transportadoras e empresas espalhadas pelo estado de São Paulo.
  • Os Albuquerque: Possuíam influência política, operações clandestinas e contatos capazes de dificultar investigações.
Vicente Albuquerque, pai de Serena, apresentara a união como um acordo de paz. O falecido pai de Dante provavelmente a teria chamado de estratégia. Mas Dante cometera um erro que nunca imaginou cometer: apaixonara-se pela mulher escolhida para aquele acordo. E, durante três anos, tentara desesperadamente fazê-la feliz.
Lembrou-se da primeira noite após a cerimônia. Serena estava parada junto à janela do quarto principal. Usava uma camisola de seda branca. Suas mãos tremiam. Dante aproximou-se lentamente:
— Serena?
Ela deu um passo para trás. O medo em seus olhos o fez parar imediatamente. Ele estava acostumado a provocar medo nos inimigos, mas jamais quisera despertar aquele sentimento na própria esposa.
— Você está tremendo — observou ele.
Serena desviou o olhar: — Estou apenas cansada.
Dante permaneceu imóvel por alguns segundos. Depois apontou para a porta:
— O quarto é seu. Vou dormir em outro lugar. Não vou exigir nada de você.
Naquela noite, saiu sem tocá-la. Acreditou que Serena precisasse de tempo. Uma semana se transformou em um mês. Um mês se transformou em um ano. E, quando percebeu, já haviam passado três anos.
Durante todo aquele tempo, Serena nunca fora abertamente cruel. Talvez isso tivesse tornado tudo ainda mais doloroso. Ela era educada, sempre agradecia e nunca levantava a voz. Mas também nunca permitia que Dante se aproximasse verdadeiramente.
Nos eventos beneficentes, apareciam juntos. Posavam para fotografias e sorriam diante dos convidados. Serena segurava discretamente o braço do marido quando alguém os observava. Mas, assim que chegavam em casa, a distância reaparecia. Se Dante entrava na biblioteca, Serena inventava uma desculpa para sair. Se ele tocava acidentalmente sua mão, ela recuava. A porta do quarto dela permanecia trancada durante a noite.
Algumas vezes, Dante a ouvira chorando. Ficava parado do outro lado do corredor. Queria bater à porta e perguntar o que havia acontecido, mas nunca encontrava coragem. Tinha medo de ouvir a resposta que imaginava conhecer: Serena odiava aquela vida, odiava o casamento arranjado e, talvez, também o odiasse.
Naquela tarde, Artur Mendes, advogado da família Cavalcanti havia décadas, entrou no escritório carregando uma pasta. Era um homem de sessenta e cinco anos, cabelos grisalhos e expressão sempre cuidadosa. Colocou os documentos sobre a mesa:
— Está tudo preparado, Dante. Você tem certeza de que deseja continuar?
O empresário olhou para a chuva: — Não. Mas vou fazer isso mesmo.
Artur assentiu lentamente: — O acordo financeiro é bastante generoso. Ela receberá a propriedade em Campos do Jordão, o apartamento em São Paulo e cinquenta milhões de reais.
Dante pegou a caneta: — Setenta e cinco milhões. E segurança pessoal permanente para ela, principalmente depois do divórcio.
Artur fechou a pasta: — Você ainda a ama.
Dante não respondeu. Não precisava. Assinou os documentos. A assinatura que tantas vezes decidira contratos milionários pareceu pesar mais do que qualquer arma que já segurara.
Naquela noite, pouco depois das dez, Dante pegou o envelope e caminhou em direção à ala da cobertura onde Serena costumava passar as noites. A residência ocupava praticamente todo o último andar de um edifício luxuoso. Aproximou-se do jardim de inverno e viu que a porta estava entreaberta. Ergueu a mão para bater, quando ouviu uma voz feminina:
— VOCÊ ESTÁ SENDO COMPLETAMENTE HISTÉRICA, SERENA! ARRUME SUAS MALAS AGORA!
Dante parou. Reconheceu imediatamente a voz de Patrícia Albuquerque, sua sogra. Uma mulher elegante, ambiciosa e acostumada a conseguir tudo o que desejava. Do outro lado da porta, Serena respondeu de forma firme e quase desafiadora:
— Eu não vou embora.
Patrícia respondeu com irritação:
— Você não tem escolha! Seu pai já deu a ordem. Carlos Espósito vai atacar as operações do Porto de Santos esta noite. Antes da meia-noite, as principais rotas de transporte estarão comprometidas. E amanhã...

 
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