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Uma Refeição, um Segredo e um Mafioso

Capítulo 2: O Peso da Dívida

Dei uma refeição quente a um menino perdido durante uma tempestade em Chicago, sem imaginar que ele era filho do homem mais temido da cidade. Quando o pai atravessou a porta da minha lanchonete falida, olhou para mim e disse algo que fez o lugar inteiro silenciar…

Capítulo 2

— A senhora deu comida ao meu filho.

As palavras não soaram como um agradecimento. Soaram como uma acusação grave, calculada, fria como o vento cortante que vinha do Lago Michigan.

O silêncio engoliu o salão. Atrás do balcão, o cozinheiro deu dois passos lentos para trás, quase sumindo nas sombras da cozinha. Os seguranças espalhados pelas portas mantinham as mãos dentro dos sobretudos escuros. Ninguém se movia.

Mikhail Volkov deu um passo à frente. O couro dos seus sapatos caros estalou no chão de linóleo gasto. Seus olhos, do mesmo tom cinza metálico dos de Misha, cravaram-se no meu rosto.

— Dei — respondi, tentando impedir que minha voz tremesse. — Ele estava com fome e congelando na chuva.

O homem inclinou a cabeça de leve, avaliando a lanchonete ao redor: as mesas rachadas, a tinta descascando no teto, as lâmpadas fluorescentes que zumbiam como mosquitos elétricos. Uma lanchonete falida, sustentada apenas pela teimosia.

— Ele é uma criança — continuei, engolindo a saliva que parecia areia seca na garganta. — Qualquer pessoa faria o mesmo.

Um sorriso tênue, sem qualquer calor, surgiu no canto dos lábios dele. — Não em Chicago, senhora Miller. Neste bairro, as pessoas não alimentam nem os cachorros sem cobrar antes.

Ele sabia o meu sobrenome. O sangue gelou nas minhas veias. Como ele sabia quem eu era se nem sequer tínhamos nos falado antes?

— Papai… — Misha puxou a manga do sobretudo do pai com a mãozinha tímida. — A mulher foi boazinha. Ela me deu torta de maçã. Aquela que ela tinha guardado.

Mikhail olhou para o garoto. Por uma fração de segundo, a máscara de gelo daquele rosto impenetrável quebrou-se, revelando uma dor quase invisível. Ele tocou o topo da cabeça do menino com os dedos enluvados. — Vá para o carro com Roman, Misha. O papai precisa resolver os negócios aqui.

Um dos homens altos aproximou-se em silêncio. Misha hesitou, olhou para mim e acenou de leve com a cabeça. — Tchau, senhora Miller. Obrigado pelo bolo de carne.

— Tchau, querido… fique bem — murmurei de volta.

Assim que a porta de vidro bateu e Misha desapareceu dentro do primeiro SUV blindado, o ar dentro da lanchonete pesou dez vezes mais. Mikhail Volkov puxou uma cadeira de metal desgastada, sentou-se sem pedir licença e apoiou os cotovelos sobre a mesa de fórmica.

— Sente-se — ele ordenou. Não era um convite.

Caminhei com pernas pesadas e sentei-me do outro lado da mesa. Minhas mãos repousavam sobre o colo, unhas cravadas nas palmas para disfarçar o tremor involuntário.

— Eu não fiz nada de errado, senhor Volkov — falei firme, buscando cada gota de dignidade que ainda me restava. — Só cuidei do seu menino. Você não me deve nada, e eu certamente não devo nada ao senhor.

Mikhail tirou uma cigarreira de prata de dentro do casaco, pegou um cigarro, mas não o acendeu. Apenas o girou entre os dedos longos e fortes. — Nada é de graça nesta vida, Helena Miller. Nem a gentileza. Especialmente a gentileza.

Ele sabia meu primeiro nome agora.

— Há duas semanas — continuou ele, a voz rasteira como o ribombar do trovão lá fora —, um homem veio a esta mesma lanchonete cobrar uma hipoteca atrasada no valor de cento e vinte mil dólares. Ele te deu trinta dias para entregar as chaves ou o prédio iria a leilão. Correto?

O choque me paralisou. Essa era a correspondência que eu havia escondido debaixo do caixa, que nem mesmo o meu cozinheiro sabia. O aviso final do banco de investimentos locais.

— O que isso tem a ver com o seu filho? — perguntei, sentindo o peito arder.

— Tem tudo a ver — ele respondeu sem piscar. — O homem que comprou a sua dívida do banco não é um banqueiro comum. Ele se chama Marcus Vance. E Vance tem tentado me atingir de todas as formas possíveis há mais de três anos.

Mikhail inclinou-se para a frente, diminuindo a distância entre nós. A colônia cara misturada com o cheiro de chuva e couro inundou meu olfato.

— Marcus Vance sabia que a babá de Misha tinha dívidas de jogo. Ele comprou a lealdade dela. Hoje à tarde, no shopping, Misha não se perdeu atrás de um gato de rua por acaso, Helena. A babá o deixou para trás de propósito, para que os homens de Vance o levassem assim que ele saísse pelas portas dos fundos.

Arfei, cobrindo a boca com uma mão. A lembrança dos olhos assustados de Misha voltou à minha mente com uma clareza aterrorizante. Ele não estava apenas perdido. Ele estava sendo caçado.

— Meu filho correu para o lado errado do estacionamento e entrou na sua lanchonete antes que eles conseguissem pegá-lo — Mikhail continuou, com a voz agora destilando um veneno calmo e mortal. — A sua porta destrancada e a sua sopa quente salvaram a vida do meu único herdeiro.

— Então… você veio me agradecer? — arrisquei, sentindo um sopro de esperança enganosa.

Mikhail colocou o cigarro apagado sobre a mesa e olhou fixamente no fundo dos meus olhos. — Eu gostaria que fosse simples assim, Helena. Mas quando cheguei aqui e olhei pela janela antes de entrar, não vi apenas você servindo torta para o meu garoto. Eu vi os homens de Vance estacionados no posto de gasolina do outro lado da rua, vigiando este lugar há exatamente quarenta minutos.

O sangue sumiu do meu rosto. Olhei instintivamente para a janela molhada da lanchonete. Do outro lado da avenida mal iluminada, sob a luz amarela e piscante do posto abandonado, uma van preta e sem identificação mantinha os faróis apagados.

— Eles viram o Misha entrar — Mikhail murmurou, a voz descendo uma oitava, carregada de uma promessa fria. — Eles viram você acolhê-lo. E agora eles acham que você trabalha para mim.

Antes que eu pudesse gritar ou tentar levantar, Mikhail puxou um envelope pardo grosso de dentro do casaco e o jogou sobre a mesa. O envelope abriu-se levemente, revelando maços grossos de dinheiro vivo, junto com uma escritura assinada.

— Você tem duas opções, dona da lanchonete — disse o homem mais temido de Chicago, levantando-se devagar. — Ou você pega essa bolsa, entra no meu carro e abandona esta cidade esta noite para sempre… ou você fica aqui para tentar salvar suas paredes velhas e enfrenta os homens que estão prestes a atear fogo neste quarteirão inteiro com você dentro.

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