O Caderno Que Minha Mãe Escondeu
Capítulo 1
A 9.000 metros de altitude, vi minha esposa se arrastando pelo chão da nossa cozinha enquanto minha mãe mantinha as muletas dela fora de alcance.
O vídeo durava 47 segundos.
Não precisei chegar ao fim para saber que algo dentro da minha família acabava de se quebrar.
Minha esposa, Lucía, estava com grossos gessos nas duas pernas, dos dedos dos pés até abaixo dos joelhos.
Cinco dias antes, um motorista havia avançado o sinal vermelho em Guadalajara e atingido o carro de aplicativo no qual ela voltava do trabalho.
Os médicos tinham sido claros.
Nada de apoiar peso.
Nada de esforços desnecessários.
E jamais deveria se locomover sem ajuda.
Naquela manhã, antes de pegar um voo para Monterrey para uma reunião que minha empresa vinha organizando havia meses, eu havia deixado tudo preparado.
Remédios.
Água.
Comida.
O celular dela.
Uma cadeira de rodas alugada.
E as muletas ao lado do sofá.
Eu quase cancelei a viagem.
Minha mãe, Teresa, insistiu.
“Vá tranquilo, Mateo. Eu fico com ela. Lucía é como uma filha para mim.”
Eu acreditei nela.
Seis horas depois, eu estava vendo aquela mesma mulher obrigar minha esposa a preparar comida para 13 parentes.
Minha prima Daniela havia gravado o vídeo sem que minha mãe percebesse.
Lucía estava sentada no chão da cozinha.
Seu rosto estava pálido, e uma das mãos permanecia apoiada sobre o piso de cerâmica.
“Teresa, por favor. Me dê minhas muletas.”
Minha mãe as levantou.
Por um segundo, achei que fosse entregá-las.
Em vez disso, caminhou até o corredor e as deixou ainda mais longe.
“Quando terminar as batatas.”
Depois, empurrou com o pé um saco de 5 quilos na direção de Lucía.
“E se apresse. Todo mundo chega às 2.”
O vídeo terminou.
Fiquei olhando para a tela preta do celular enquanto o avião continuava avançando em direção a Monterrey.
Não liguei para minha mãe.
Não gritei.
Não lhe dei a oportunidade de inventar uma explicação.
Chamei a comissária e perguntei qual era a forma mais rápida de voltar para Guadalajara.
Depois escrevi para Daniela.
“Tire Lucía daí. Não a deixe sozinha.”
Em seguida, abri a conversa com nosso advogado.
Mas, antes de enviar qualquer coisa, reproduzi o vídeo novamente.
Na segunda vez, olhei para o rosto de Lucía.
Ela não estava chorando.
Isso foi pior.
Eu conhecia aquela expressão.
Era a expressão que ela fazia quando tentava suportar alguma coisa sem me preocupar.
Reproduzi o vídeo uma terceira vez.
Então vi algo atrás da minha mãe.
Sobre uma pequena mesa, embaixo de várias contas, aparecia a ponta de um objeto de couro preto.
Pausei o vídeo.
Senti minhas mãos gelarem.
Era um caderno.
Um velho caderno preto com as iniciais R.A. gravadas no canto.
Tinha pertencido ao meu pai, Raúl Álvarez.
Meu pai havia morrido 16 anos antes.
E, durante 16 anos, minha mãe jurou que aquele caderno havia desaparecido na noite da morte dele.
Quando eu tinha 22 anos, procurei por ele durante semanas.
Meu pai levava aquele caderno para todos os lugares.
Anotava despesas das obras, telefones, ideias e coisas que dizia não querer esquecer.
Uma vez, rindo, ele me disse:
“É aí que guardo as verdades antes que as pessoas estejam preparadas para ouvi-las.”
Depois do funeral, perguntei pelo caderno.
Minha mãe respondeu que provavelmente o havia jogado fora ao limpar o escritório dele.
Nunca mais o vi.
Até aquele momento.
Liguei para Daniela.
“Preciso que faça uma coisa sem reagir.”
“O que aconteceu?”
“Olhe para a mesa atrás da minha mãe. Tem um caderno preto.”
Ouvi passos.
Depois, silêncio.
“Sim. Está aqui.”
Respirei devagar.
“Pegue.”
“Mateo…”
“Pegue e leve Lucía embora.”
Daniela não fez mais perguntas.
Vinte minutos depois, me ligou do carro.
Lucía estava com ela.
O caderno também.
Mas, quando Daniela tentou sair da casa, minha mãe viu o couro preto debaixo da jaqueta dela.
E, pela primeira vez em todos aqueles anos, Teresa Álvarez pareceu realmente apavorada.
“Me dê isso”, ordenou.
Daniela recuou.
Então Lucía, da cadeira de rodas, disse algo que ninguém esperava.
“Não entregue.”
Minha mãe ficou imóvel.
Olhou para Lucía.
“Você já viu isso?”
Lucía não respondeu.
Minha mãe perdeu a cor do rosto.
“Você abriu?”
Houve vários segundos de silêncio.
Finalmente, Lucía disse:
“Há 3 meses.”
Senti meu coração parar.
Porque eu não sabia nada daquilo.
E, quando perguntei a Lucía o que havia lido no caderno do meu pai, ela demorou vários segundos para responder.