O Caderno Que Minha Mãe Escondeu
Capítulo 2: O que Lucía havia encontrado
“Há 3 meses.”
Aquelas duas palavras continuaram ecoando na minha cabeça.
“Lucía, o que você leu?”
Ela respirou fundo.
“Tudo.”
“Tudo o quê?”
“Tudo o que estava escrito ali.”
Eu estava no aeroporto de Guadalajara, esperando o primeiro voo de volta, enquanto Daniela permanecia ao lado de Lucía.
Minha esposa segurava o caderno preto contra o peito.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Então ela falou:
“Mateo, seu pai não perdeu esse caderno.”
Meu estômago se apertou.
“Eu sei. Ele estava com minha mãe.”
“Não.”
A voz de Lucía ficou baixa.
“Quero dizer que ele nunca desapareceu.”
Olhei para a tela do celular.
“Como você sabe?”
“Porque eu encontrei esse caderno há três meses.”
“Encontrou onde?”
Ela hesitou.
“Na casa da sua mãe.”
Senti um frio percorrer minhas costas.
“Por que você nunca me contou?”
“Porque eu ainda não sabia se podia confiar no que estava escrito.”
“E agora?”
“Agora sua mãe sabe que eu sei.”
Fiquei em silêncio.
Daniela interrompeu:
“Mateo, há outra coisa.”
“O quê?”
“Quando sua mãe viu o caderno, ela não perguntou se eu tinha roubado alguma coisa.”
“Então o que ela perguntou?”
Daniela olhou para Lucía.
“Ela perguntou se eu tinha lido a última página.”
Meu coração acelerou.
“Você leu?”
Daniela respondeu:
“Não.”
Lucía apertou os dedos sobre a capa preta.
“Eu li.”
“E o que havia nela?”
Minha esposa demorou alguns segundos.
“Uma data.”
“Qual?”
“Na noite em que seu pai morreu.”
Fiquei imóvel.
Meu pai havia morrido dezesseis anos antes.
Eu tinha vinte e dois anos.
Durante todo aquele tempo, minha mãe havia repetido a mesma história.
Meu pai tinha passado mal no escritório.
Ela o encontrou caído.
Chamou ajuda.
E o caderno desapareceu durante a limpeza da casa.
Era tudo o que eu conhecia.
“Lucía…”
“Há mais.”
Ela abriu o caderno.
“Seu pai escreveu que estava com medo.”
“Medo de quê?”
“De alguém dentro da família.”
Não consegui responder.
Minha mãe.
A mulher que havia acabado de obrigar minha esposa, com as duas pernas engessadas, a se arrastar pelo chão para preparar comida.
A mulher que eu havia deixado sozinha com Lucía porque confiava nela.
“Por que você não me contou há três meses?”
“Porque, naquele momento, eu não tinha certeza de que seu pai estava falando da sua mãe.”
“E agora tem?”
Lucía me encarou.
“Depois do que aconteceu hoje?”
Ela não terminou.
Não precisava.
Naquele instante, recebi uma mensagem.
Era de Teresa.
“Mateo, não faça nada precipitado.”
Li novamente.
Depois chegou outra.
“Você não sabe o que está fazendo.”
Meu sangue gelou.
Eu ainda não havia contado a ela que estava voltando.
Ainda não havia mencionado o caderno.
Como ela sabia?
Mostrei a mensagem a Daniela.
Ela ficou séria.
“Ela sabe.”
“Sim.”
“E talvez esteja com medo.”
Lucía fechou o caderno.
“Ela não está com medo do que eu li.”
Olhei para minha esposa.
“Então de quê?”
“Do que você vai descobrir quando ler.”
O embarque foi anunciado.
Eu deveria entrar naquele avião.
Mas não consegui.
Pedi o cancelamento.
Depois liguei para o advogado.
Não contei tudo.
Só disse que precisava de uma orientação urgente sobre documentos antigos do meu pai e sobre a possibilidade de preservar uma prova encontrada na casa da minha mãe.
Ele fez algumas perguntas.
Eu respondi.
Então ele disse:
“Não altere nada no caderno. Não escreva nele. Não retire páginas. Guarde-o exatamente como foi encontrado.”
“Entendido.”
“E não confronte sua mãe antes de preservar o conteúdo.”
Olhei para Lucía.
“Por quê?”
“Porque, se ela passou dezesseis anos escondendo alguma coisa, saber que o caderno reapareceu pode fazê-la destruir o que ainda estiver ao alcance dela.”
Desliguei.
Poucos minutos depois, recebi uma ligação desconhecida.
Atendi.
Ninguém falou.
“Alô?”
Silêncio.
Então ouvi a respiração de uma mulher.
E a ligação caiu.
Olhei para Lucía.
Ela estava pálida.
“Era minha mãe?”
“Não sei.”
Daniela perguntou:
“Você quer voltar para casa?”
Balancei a cabeça.
“Não.”
“Então para onde?”
Olhei para o caderno.
“Para a casa da minha mãe.”
Lucía segurou meu braço.
“Mateo, não.”
“Preciso saber.”
“Você precisa pensar.”
“Passei dezesseis anos pensando que meu pai morreu sem deixar respostas.”
Abri a capa.
“Agora eu tenho uma.”
Lucía ficou em silêncio.
Daniela também.
E foi então que percebi uma coisa.
Havia uma pequena folha dobrada dentro da contracapa.
Eu não tinha visto antes.
Nem Lucía.
Nem Daniela.
Puxei lentamente.
A folha tinha apenas uma frase.
Escrita pela mão do meu pai.
“Se Mateo encontrar isto, Teresa já sabe.”
Meu coração disparou.
Abaixo da frase havia outra linha.
Uma linha que havia sido parcialmente coberta por uma mancha antiga.
Aproximei o papel da luz.
Consegui ler apenas algumas palavras.
“...não foi um acidente.”
Olhei para Lucía.
Ela levou a mão à boca.
E, naquele momento, meu telefone começou a tocar.
Era minha mãe.
Atendi.
“Mateo?”
Sua voz estava diferente.
Não era a Teresa que eu conhecia.
Era uma voz cansada.
Assustada.
“Estou voltando”, falei.
Silêncio.
Então ela respondeu:
“Não venha.”
“Por quê?”
“Porque, quando você descobrir toda a verdade, talvez nunca mais consiga olhar para mim.”
A ligação terminou.
Fiquei olhando para o telefone.
Lucía me encarou.
E pela primeira vez, eu percebi que talvez o maior segredo da minha família não fosse o que havia acontecido com meu pai.
Talvez fosse o motivo pelo qual todos haviam passado dezesseis anos tentando esconder aquilo de mim.